Sunday, September 26, 2010

SEQUÊNCIA 1

1. CORREDOR/APARTAMENTO - INTERNA - DIA

Barulho do elevador se abrindo, para depois ELA surgir caminhando pelo corredor. Chega à porta do apartamento, abre, entra e segue até o quarto (janelas abertas). Larga a bolsa em cima da cama, pega um cigarro, caminha até o outro quarto (janelas abertas). Pára de frente para a janela, observa a cidade. Durante esta sequência de entrada se escuta a voz em off de uma mulher dizendo o seguinte:


Não quero mais. Não posso mais. Eu até gosto de você,
mas a gente não dá mais certo. Preciso reavaliar as coisas, preciso de 
um tempo pra pensar e preciso estar sozinha.


Assim que a voz silencia, ELA ainda observa a paisagem, mas fecha os olhos lentamente. Logo depois um contracampo num plano geral mostra ELA e a cidade no fundo.


2. QUARTO - INTERNA - DIA

ELA está deitada na cama, meio coberta. O quarto está na penumbra, mas já é manhã (cedo provavelmente). Abre os olhos sonolenta e olha para a janela. Fica com o olhar fixo, mexendo a boca, experimentando o gosto do mau hálito matinal. Depois de uns instantes imóvel, dá um suspiro e se senta. Permanece em silêncio enquanto escuta o barulho que vem lá de fora (carros, avião, etc). 

3. QUARTO - INTERNA - DIA - FLASHBACK

ELA e ELLA estão deitadas, acabaram de acordar. Se abraçam enquanto se beijam sutilmente e dão "bom dia". Planos detalhe.

4. QUARTO - INTERNA - DIA

ELA continua sentada olhando para a pouca luz que entra pela janela. As lembranças sempre lhe trazem um aperto, uma angústia daquele tipo que às vezes só o cigarro alivia.



Friday, August 20, 2010

Melhor remédio que levar o cigarro à boca e daí para um apoio, é ouvir a voz dela. Uma vez ao dia, no mínimo. Sempre foi a solução para a fadiga, para a insatisfação, para o delírio de cada hora. Porque o "beijo" dela chia de um jeito que acorda a minha preguiça. Estou completamente errada em precisar disto, eu sei, mas é que suas palavras são infalíveis e se desfazem mesmo no ar - depois explodem em mim. Então não guardo nada. 

Nisso eu desaprendi o que é certo ou relativo. Errado nunca existe no que diz respeito a nós, porque continuo cega e manca. O amor sempre me deixa assim; ele pesa. Não é doce, nem maravilhoso. É inesquecível e por isso me maltrata. Sua voz não tem só me acordado, mas me empurrado para qualquer lugar, qualquer um longe dela. Quanto mais eu sou expulsa, mais quero permanecer e solidificar. Nem ouse pensar que é outra coisa além de pura burrice. 

Ela manda sinais equívocos e pego todos como se fossem pra mim. Claro que nada é compreensível, restando apenas sentar e chorar. A redenção que procuro nas lágrimas nunca vem. Esperança é isso:  esperar ansiosamente pelo desconhecido e inexistente. 

Acendo mais um cigarro e aguardo ela encontrar o amor. Aqui. Vou esperar que ela se sente e repouse seus dramas no meu ombro, para que então eu possa abraçá-la e dizer que tudo bem, é assim que vamos ficar. 

Wednesday, August 18, 2010

A tristeza me dá saudade dos pesadelos. Desde que essa mulher chegou, a minha vida é sonho (e nem é de baunilha). Quando aquela sala era meu quarto e as vozes me chamavam de noite, viver tinha uma graça diferente, porque era melhor que dormir pra ouvir os fantasmas. 

Eu sei, a inquietação do amor é o pior fantasma que existe e o medo de que ela se vá me perturba mais do que a voz de um degolado qualquer. Se ela for, quem vira degola sou eu. Não é caso de ato desesperado, é fato. Vai me levar junto aonde for e, Deus queira, que sinta o peso da minha consciência e do meu amor. Deus? Alguém, ela de preferência. Que saiba que fui também e que só deixou pra trás uma carcaça velha abandonada.  Adianta correr o mundo e levar meu coração na mala? Hein? 

Um dia vou voltar a dormir numa sala escura e a ouvir murmúrios, mas apenas se ela resolver acordar no meio da noite pra pegar um copo d'agua e nunca mais voltar. 
Esse pesadelo eu ainda não consegui dormir. Mesmo assim ele não sai de mim, dos meus labirintos. Ela, minha namorada, poderia me conhecer melhor, mas não conhece. Poderia me ter e me ver crescer no vácuo de suas mãos fechadas, mas não tem. Aí tudo vira uma história mal contada, uma seqüência de frames queimados pela ausência. Onde foi que eu me perdi? 

Provavelmente aconteceu quando respondi aquele recado. Morfeu me abandonou e me deixou assim, acordada eternamente, gravando esse típico filme pra ser esquecido no porão. Uma história difícil de relembrar daqui a alguns muitos anos. Aposto que existem mais obstáculos agora do que no futuro, porque um dia posso preencher as lacunas com invenções; neste momento tudo que está ao alcance é apenas observá-las e torcer por mim, pois essa é uma história contada a dois e isso não se modifica. 

A cadência da música na minha mente é que dita. O que? Tudo. Esse ângulo da vida é nauseante. A gente já está chegando? Ou essa luz no fim é a luz errada? É que a falta de crença nas palavras dela levou meu discernimento embora. 

Ainda preciso das suas mãos percorrendo as minhas costas, da sua boca tocando minhas leviandades, seus dentes arranhando minha pele e suas unhas fincadas na minha imaturidade. Quando ela canta então! Acerta todo o meu sofrimento autopiedoso, minhas fobias. A melodia faz o meu eu se contorcer até não poder mais se esconder de si mesmo. Logo, odeio quando ela canta. Faz eu me encontrar na sua voz gostosa e inconfundível. Não daria em outra coisa além de fúria. Desculpe, prefiro ficar assim bem longe de mim. 

Se ela pelo menos entendesse. Se concordasse em lançar aqueles olhares só pra mim, se fosse bondosa e simpática só comigo, se fosse bonita pra mim e não pra eles... se assim fosse, eu ficaria feliz. Esse caminho do querer pode parecer ruim, mas é o mais determinado. O querer vem absoluto quando se precisa possuir.

O problema é que ela não é, que ela nunca me tem e o filme fica se repetindo. Se torna difícil tocá-la, senti-la, alcançá-la. Onde foi que eu te encontrei? E onde eu te perdi? Me diz, quando foi que eu acordei? 


Thursday, October 29, 2009

Aquela música não pára. A voz canta tudo que ela quer no ritmo bailante. Inacreditável. É o cd certo?

The emotion it was, electric
And the stars, they all aligned
I knew I had to make my, decision
But I never made the time
No, I never made the time


Três carros vermelhos, quatro pretos, um branco, ela do outro lado da rua. Ela não é carro, tira um. Ela não é carro, então pára! Ela não é carro, respira, sabe ler, fica em pé esperando o sinal fechar, calça sapatilhas, veste jeans, blusa de algodão cru, óculos gigante, enrola uma revista na mão, o cabelo num coque mal feito, ensaia um espirro, ela avisa que não é carro.


In the dark, for a while now
I can't stay, so far
I can't stay, much longer
Riding my decision home


Difícil chegar do outro lado assim. Ela tem que dar licença, porque carro não pode ficar na calçada. Será que vou ter que levar pela mão mesmo? Ah, Brandon Flowers, por favor! Se não parar de cantar assim...In the dark, for a while now, I can't stay, so far...não vai dar. Ela olha direto, bem reto, para a frente, observa uma outra que canta baixinho aqui desse lado. O vento traz o perfume bem dos seus segredos indolentes até aqui, pra mim e pro Brandon. Se você ao menos pudesse estar perto o suficiente pra sentir.

There is a majesty at my doorstep
There is a little boy in her arms
Now we'll parade around without game plans
Obligations, or alarm


Os carros param. Eu posso passar. Aí tudo engata e olho para o céu, depois para ela. Brandon me convence e começa a sair um cantar raro de se ver:

- In the dark, for a while now...I can't stay, very far...

O silêncio. Ela leva a revista na direção da boca e antes de pensar que além de ser carro, ela engole publicações inteiras, ouço:

- I can't stay, much longer...Riding my decision home!

E corta.

Friday, September 25, 2009

Namorar me castrou.

É que em vez de ser fértil, bonito, poético e inspirador foi simplesmente...aquilo. Não me trouxe nada de poderosamente transformador. Foram só seis meses. Ou um ano e 5 meses. Tempo agora é o de menos.

Fato é que pensar em amor, paixão, casamento, filhos, casa, pensar em tudo isso que só existia em energia desconhecida, foi emburrecedor. Porque fechei os livros, larguei as aulas mais chatas e enriquecedoras, parei de escrever à mão, não soube mais o que era escrever cartas pra alguém que nunca vi, não soube mais assistir televisão, não soube mais ficar bêbada e me divertir.

Namorar me ensinou a depender de alguém, a ligar pro mesmo número toda madrugada, a saber coisas que eu não queria, me ensinou sobre a ignorância alheia, me ensinou a gastar o dinheiro que eu não tinha, me ensinou a não ter pudor. Namorar também destruiu meu vocabulário e minha mente perspicaz.

Depois de namorar, eu acendo um cigarro, ouço a música e contemplo. Porque não namorar me permite enxergar o mundo de novo, o mundo novo. Sim, senhor, eu acendo um cigarro porque namorar é rápido, voluptuoso e aquela outra coisa que eu não sei descrever. Namorar acabou com isso também.

Sem namoro, não tem cerimônia. Você ama e pronto. Ninguém te pergunta se é muito ou pouco. Ninguém te pede a terceira via do formulário. Você bebe e fala o que quiser. Disso eu senti tanta falta.

O não namoro é como um espelho. Ou melhor, é um reencontro. Depois que você se livra da alma gêmea do ano, é obrigado a conviver consigo de novo. Mesmo que não goste, seu eu estará sempre bem atrás. E o pior: às vezes os fantasmas vão bem à frente. Nesse caminho não tem desvio.

Tem namoro que só serve pra te distrair. Quando acaba você pensa “Eu de novo?!”. Até entender o que aconteceu naquele espaço de tempo em que você mesmo esteve longe, parece tarde. Aí é a parte em que acende um cigarro e toma cuidado pra não queimar os velhos papéis que vai catar pelo quarto pra tentar se refazer.

Todo fim de namoro é uma oportunidade pra se reencontrar e limpar aquele espelho velho e persistente. E de emagrecer.

Tuesday, April 21, 2009

A dureza da vida, engolida à seco, a dureza da vida. Que era isso? Não se comparava a um suco de cupuaçu bem forte, nem a nenhuma limonada suíça. A besteira que passava e ela não via, nunca via. Do alto não dava pra ver, só se ela chegasse bem na janela. Às duas da madrugada os olhos ardiam e ela não sabia o porquê de ainda não estar dormindo. E também queria saber qual o problema. Devia ser glicose.
O açúcar que embaçava a vista, trazia a fadiga e deixava tudo mais molenga. Podia ser doença, mas quem ligava? Já dizia o poeta do senso comum, da opinião pública, da indústria de consciências: a vida tinha de ser doce. Talvez com mascavo, pra ter mais graça. E nesse mais de demasiadas soluções ninguém arregalava os olhos. Abri-los era estar adormecido...e vigiado. Quem olha para o lado entende o que eu digo. Quem acorda de um pesadelo inexplicado, no escuro, atordoado, procura, não acha, entende o que eu digo.
O ar vai. E volta. O açúcar fica. O pesadelo vai. A escuridão vem. As horas seguem ligeiras.

Tuesday, April 14, 2009

Embuste - A vida dos bonecos

O refúgio dos atores e de seus bonecos está na rua 16 de novembro, no Casarão do Boneco. Um casarão antigo, aos poucos reformado, grande. O corredor longo, de janelões espaçosos, nos dá passagem para o ateliê, o escritório, os banheiros, a copa e uma porta. Depois da porta uma escada que nos leva, afinal, ao anfiteatro. Onde antigamente era a sala da casa, atualmente está o mini-museu da In Bust. São diversos tipos de bonecos, agrupados em prateleiras, suportes ou apenas no chão. O processo de confecção e elaboração é responsabilidade de Aníbal Pacha, 51 anos, único artista plástico do grupo. Sentado no ateliê abarrotado de caixas e caixas de material como tecidos, tintas, colas, papéis, ele afirma que a última palavra é sempre dele em relação aos bonecos. “Não passamos meses trabalhando em um boneco. Não temos tempo nem necessidade disso”, diz. O material que será usado na confecção varia de acordo com o texto a ser montado. Isso explica a variedade dos bonecos. Grandes, pequenos, estranhos, bizarros e engraçados, como alguns feitos com minúsculas bolinhas de papel, os seres inanimados parecem transparecer emoções reais. Tudo devido ao trabalho detalhista dos in busteiros.

Mas em seus espetáculos as estrelas não são só os olhões e os corpos de madeira. O ator que interage com o boneco é fundamental, segundo os integrantes. “Não dá pra imaginar uma montagem nossa sem um ator-manipulador”, diz Adriana Cruz. “Se tiver, não é nossa”, completa Paulo Nascimento. Esse ator coadjuvante ou tão importante quanto os bonecos para a dramaturgia de certos textos, já é inerente à pesquisa dos atores sobre teatro de bonecos. Ou com bonecos, como preferem dizer por uma questão de entendimento deles mesmos. “É com bonecos, porque é o que fazemos”, dizem.

O espetáculo “Sirênios”, criado em 2005, é um exemplo do argumento sincero dos atores. Aníbal, Adriana e Milton Aires – ator convidado e colaborador constante do grupo – dividem o palco para contar a história do peixe-boi, único herbívoro dos mamíferos aquáticos. Adaptado para proporções menores, diferente da montagem original que tinha bonecos enormes, o espetáculo intercala atuação humana com atuação ilusória dos bonecos. Graciosamente o texto flui de forma encantadora. Não só pela lenda, mas pela atmosfera lúdica do momento. Bonecos feitos de cestas e paneiros ganham vida de Itá, Itu e Ité. A água é como uma grande bandeira que tremula pela ação do ator. O artista passa de pura manipulação a caboclo ou português em questão de segundos. É a prova legítima de que o ator e boneco precisam se encontrar frente a frente. Não é que o boneco por si só não tenha graça, mas o ator completa a catarse, mostrando que isso é um espetáculo completo.

A origem de quase todos os atores é paraense, mas as histórias são diferentes. Adriana, 31 anos, carioca, mas criada no Pará, sempre acompanhava o pai nos centros comunitários, onde este dirigia peças com elenco infantil. Depois de grande, largou de ser professora para ser atriz. Aníbal, 51, veio de trabalhos com cinema, fotografia e publicidade e entrou em cena pela primeira vez com a Usina Contemporânea de Teatro nos anos 90, mesma época em que conheceu Paulo. Este por sua vez, atualmente com 40 anos, tomou gosto pelo teatro ainda moleque, quando resolveu fazer uma oficina de teatro para ver como era. Viu e nunca mais parou. Ele diz que outro fato que vivenciou e lhe encantou foi assistir a montagem de “Pluft – O fantasminha”, com o grupo original de Maria Clara Machado, no Rio de Janeiro. “Foi fantástico”, diz. A quarta integrante, Cristina, 42, foi a última a entrar. Em 2005 assumiu a produção do grupo e entrará em cena no próximo espetáculo “Catolé e Caraminguás”.

No início da carreira, sentiram o preconceito com o teatro de bonecos. Todos achavam que era um tipo menor de teatro e este foi um dos grandes estímulos para os in busteiros se fazerem respeitar. O grupo foi do primeiro passo com um espetáculo modesto chamado “Mini Minutos de Fama”, em 1996, a um grande sucesso chamado “Catalendas”, levado ao ar pela primeira vez em 1999. O programa televisivo com duração de 15 minutos, exibido na TV Cultura, em rede nacional, conta mitos, lendas e causos da cultura popular através do teatro de bonecos. O sucesso é sutil. “Nós não temos noção da dimensão disso. Só quando viajamos pra outros estados, mas ainda assim, não mensuramos o tamanho do sucesso”, diz Adriana Cruz, a atriz manipuladora da Dona Preguiça, personagem popular pela sua voz peculiar.

Uma das grandes dificuldades para se fazer teatro, segundo eles, é o público. A massa que se afastou dos teatros, massa que frequentava teatro a muitos anos atrás como se fossem clássicos da seleção brasileira de futebol hoje em dia. Aí consiste um dos principais motivos para a In Bust realizar projetos como o “Bonecos na Estrada”, que leva seus espetáculos para municípios do interior do estado. Mostrar arte para quem não tem ao alcance, de forma gratuita. Aglomerar pais e crianças ao redor de um cenário simples para assistir algo diferente. Este projeto já passou por 43 municípios e foi apresentado para cerca de 18.500 pessoas até agora.

Entre apresentações em escolas públicas, comunidades do interior, centros comunitários, festivais, Casarão, gravações do “Catalendas”, a In Bust Teatro com Bonecos é uma representante expressiva da cena artística paraense, já tão defasada de novidades que valham a pena. A In Bust não é novidade, no sentido efêmero, corriqueiro e relâmpago. Ela é realidade no sentido mais positivo. Não é produto de massa, é produto para todos. Principalmente, porque é possível.

Sunday, January 25, 2009

UNIMED SOB AUDITORIA DA ANS

Janeiro/2009

Renata Cardoso

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) solicitou ao Conselho Federal de Contabilidade o envio de um contador à Unimed Macapá. A Agência pretende fazer um levantamento financeiro, econômico e fiscal da unidade, revisando documentos que datem de 2006 a 2008. Segundo Paulo Roberto Penha Tavares, contador designado para a auditoria, o procedimento é normal. “A ANS tem realizado o mesmo levantamento em diversas operadoras de plano de saúde, em outros estados”, afirma.

O objetivo seria verificar o funcionamento destas empresas e tomar as providências devidas diante de possíveis irregularidades. De acordo com o auditor, é a primeira vez que o procedimento é feito aqui e o tempo máximo de conclusão do levantamento é de 90 dias, tendo começado no último dia 9.

De acordo com Paulo Roberto, que está fazendo o levantamento sozinho, esta ação não tem nada a ver com possíveis dívidas da Unimed. Se assim fosse, haveriam muitas formas de pagá-las, já que o governo federal oferece várias alternativas a este tipo de problema.

Segundo a presidente da Unimed Macapá, Wanda Cruz, a ANS acompanha a evolução das operadoras de acordo com os relatórios que recebe das mesmas. A diferença é que agora o levantamento é pessoal. Quando questionada sobre a possibilidade da operadora estar afogada em uma dívida milionária, Wanda explica que “Uma cooperativa tem características próprias de contribuição fiscal. Quando o valor cobrado pela União ultrapassa os aspectos específicos da cooperativa, nós recorremos judicialmente”.

Enquanto espera-se o resultado final do processo, o valor cobrado é declarado nos balanços da empresa. “O valor estimado atual é de 8 milhões, mas está muito acima do correto”, alega. Wanda acrescenta que a unidade Macapá não é a única a passar por essa situação. Cerca de dois terços do sistema Unimed estão com problemas com valores de arrecadação fiscal.

A conclusão do levantamento está prevista para o final de março.

Wednesday, April 02, 2008

minha renata e seus dois amaurys

Duas partes distintas dele, com 12 anos de diferença. Duas histórias originadas do mesmo homem. Atribuem a mim como sua maior herança, a personalidade. E a ele, o pequeno, o físico. Algumas vezes a opinião se inverte. Do que não há dúvida é que somos perpetuações inquestionáveis. Não saberia falar de suas virtudes, mas uma de suas vantagens é poder contar com duas versões em nada falsas para reiterar sua dignidade. Se eu falar de sua ausência, o pequeno atentará para sua presença lacônica, a qual só compreendi quando nos encontramos frente a frente e vi que era quase um perfeito espelho. Se o pequeno lembrar-se do seu sorriso, por vezes tenso, vou sentar-me com ele e pedir que me conte mais a respeito, porque muito do que enxerguei não foi assim.

Ele gostaria de me delegar responsabilidades, sabendo o porquê delas, mas desconhecendo minha capacidade. Se ele tivesse feito, eu teria acatado para, de alguma forma, passar a aceitá-lo e conhecer a outra metade da minha história. Para o pequeno também deveria ter planos e talvez raciocinasse todos os dias, sempre que pudesse, a respeito de como lhe proporcionar o melhor. E esse era seu jeito, aliado aos trejeitos práticos e objetivos, logo, ligeiramente tortuoso, de nos afagar.

Ao partir, ele mergulhou-me no período mais intenso, mais sofrido, mais solitário da vida até então. Eu poderia não me deixar intimidar ou não conceder-lhe perdão, mas o pivô de nossa separação foi a estupidez humana e uma certeza estranha que sinto, é que estúpido ele nunca foi. Chovia na hora da partida; chovia no momento da confirmação. O céu me ajudava no pranto que me desfalecia. O pequeno olhava tudo de perto, agachado em cima do jazigo azul.

O melhor presente que me deu é baseado na incerteza de sua legitimidade e demorou 19 anos. Delegou-me uma última responsabilidade: o pequeno. Essa me assombra, me pesa, me determina, me desafia. É um espelho com a metade do meu tamanho, trazendo a metade da metade da minha história. Eu lhe reflito aquilo que não viu daquele que partiu e o que ainda está por ver se me acompanhar e pudermos juntar essas histórias.

Hoje começa o sexto mês de ausência e desespero oculto. De força arrancada às pressas do nada, de busca incessante por compreensão, de luto permanente e de surpresas dolorosas.

O pequeno e eu somos duas continuações inesperadas de um mistério personificado. Gostaria que ele voltasse, nos acomodasse em seu colo e nos contasse toda a história até dormirmos, sentindo sua respiração e a paz que só reconhecemos nos braços do pai.

Monday, October 15, 2007

Diante de uma tragédia a primeiridade vai para o espaço, se perde, voa longe.

Wednesday, August 29, 2007

Se ela soubesse que assim que abri os olhos hoje de manhã, descobri que o tamanho do meu amor é como uma picada de agulha, mas que sua intensidade é a causa de minha sandice...

Friday, August 17, 2007

Ela não sabia da tensão nos meus lábios quando lhe ouvia dizer "Eu te amo". Era como se tentasse guardar o momento para sempre entre as partes tensionadas, como o terno segredo que muda o semblante do ouvinte e sua vida nunca mais é a mesma. No entanto, ele já escapulira porque paixão e momentos são amigos do tempo. Receio que ela não me ame mais no instante seguinte. Abro os olhos e ela ainda joga os cabelos como antes, sorri perto da minha boca, minhas mãos ainda lhe afagam e o coração...
Dizer a frase de amor não basta, eu quero chorar de emoção acumulada e tola. Não consigo, não há como. Continuo de olhos abertos e estamos aqui.

Tuesday, May 22, 2007

Quando lhe beijei selei um pacto de paciência e compreensão, aventura e tentação, insegurança e conformismo. É que nada podia nem deveria fazer com o seu passado e pouco sabia do que me serviria o futuro. Os sonhos não me revelariam o suficiente para abandonar a ansiedade e fechar os olhos sem hesitação. Você me atraía para uma intimidade compartilhada, porém tímida, necessária, mas complexa em seus primeiros passos. Assim guardei teu cheiro em mim, para mim, pelo momento. Continuamos a falar dos outros tão naturalmente por causa do que éramos antes e do que almejamos preservar. Também falamos nele, porque não há ser que escape da idéia. O que me atormenta não é saber que ele existe e sim o entendimento muito claro que possuo dessa realidade amarga.

Tuesday, April 24, 2007

Ainda me recordo de quando entrava em sua casa querendo não lhe atrapalhar. Você nunca estava à vista. Arrumando algo, de forma que eu apenas ouvia os ruídos, fingia não dar conta da minha presença, como se há uma hora já não soubesse que iria chegar. Sua expressão de surpresa e sorriso tímido de quem não queria estar desocupando armários às 15:00 de quarta-feira lembravam-me que você merecia um chocolate de maracujá. Mandava-me sair já do cômodo, oferecia-me uma cadeira plástica - porque era o que eu merecia - e olhava a bagunça cotidiana da mesa. Então, às vezes o telefone tocava e ninguém queria atender. O toque impertinente, repetitivo, chamando alguém; você levantava maçante, lazy-lazy, tirava-o do gancho e nada pronunciava para ele enquanto não terminasse a frase que começara 10 segundos antes.

Tuesday, March 13, 2007

Depoimentando

"Beijei uma garota. Me apaixonei, transei, senti saudades. Passamos os fins de semana sem sair da cama, sentindo aquele gosto de amor inesperado e jovem, exalando cheiro de meninice, dando risada do que não tinha a mínima graça. Tomamos banho quase juntas - eu tinha vergonha - e ela pedia pizza de atum. Ligava pedindo colo, fazia dengo 1:30h da madrugada. Íamos a festa íntimas, de conhaque a caipiroska improvisada. Quando me cansava de todos, sentava para observá-la; aí ela se fazia mais bonita, assim de propósito mesmo, e eu me apaixonava de novo. Não de novo porque o de antes tinha acabado, e sim paixão somada a paixão, sempre mais.
Ela morava com o pai por capricho, pq trabalhava e podia se manter mt bem. Eu não aceitei uma cópia da chave de seu apartamento, claro que não. Então ela também não aceitou uma chave do meu e ficamos assim à mercê das campainhas. E gostava de viajar aquela garota! Quase sempre a trabalho, ligando de 2 em 2 dias. Sei que lembrava de mim constantemente. Certa vez foi a um programa famoso, foi entrevistada sem querer e não temeu falar do nosso romance. Me apaixonei de novo depois dessa e certifiquei que,definitivamente, seria foda me separar dela. Não que eu quisesse, mas aconteceria um dia...
Se dedicava muito ao trabalho. Com o notebook pra lá e pra cá criava coisas formidáveis. Tinha talento pra Publicidade, ainda que eu nunca tenha sido muito chegada a esses estudantes lá na faculdade. Era quase três anos mais velha e tinha riso de adolescente, bumbum também. Os amigos perguntavam oq ela queria com esse namoro e ela respondia: "Ser feliz". Eu reconhecia aos poucos que era exatamente isto que eu era qnd perto dela, apesar de seus esquecimentos (principalmente do seu supermercado do mês), das brigas por causa da abstinência sexual repentina, da implicância com meu jeito introspectivo das 6:00h às 7:03h da manhã.
Lembro de quando, num fim de semana anacrônico dentro do meu quarto sem cama, ela disse que queria um filho meu. O que podia dizer para uma mulher no auge da paixão, da juventude, plenamente amante e amada, que desejava um pouquinho mais? Pôde escolher entre homens e mulheres, porém enquanto mulher plena que era, jamais poderia fugir do instinto maior que é a maternidade. E oq eu diria a quem eu amava e daria todos os filhos que quisesse, se fosse possível? Não foi preciso responder, pois ela leu em meus olhos de 17 anos que não havia oq dizer.
Nunca entendi como certas pessoas, entre elas minha mãe, enxergavam aquele universo como uma aberração. Aquela criatura que descansava lívida, linda, vagando entre sonhos secretos, que se espalhava no meu leito de forma apetitosa e cálida, jamais poderia ser uma aberração.
Ela queria saber oq eu estava lendo, oq estava estudando, oq queria pro almoço do dia seguinte, oq é q curaria minha dor de consciência, oq é q eu sonhava em noites chuvosas. Gostava de dormir nos meus braços, de preferência com a mão em um de meus seios. Pode?! Claro q pode, podia...
De mim, tinha oq quisesse...e ela me queria.
Eu disse q um dia aconteceria de acabar, lembram? Pois acabou. Dava certo demais, era amor demais. Às vezes dava mt errado e isso era dar certo; me puxava, me tirava sarro, me degustava, me desprezava pra depois me querer mt mais. Isso me consumia, é verdade, e eu começava a querer dar um um rumo pra vida quando ela batia na porta e dizia q me amava. Era um rumo e tanto! Mas não enxergava futuro pra mim; não atrapalhava, mas não garantia nada. O problema era tudo se encaixar e eu mergulhar de cabeça. Terminamos.
Não houveram coisas a serem tiradas da casa da outra; só as lembranças e a dúvida de ter feito a coisa certa, mas recusaram-se a sair e é com elas que almoço agora. Hoje sei que ela não fuma mais, nem quer comprar o dvd de 'As Horas' , justamente na época em q sobra nas lojas. Não rói mais as unhas, esquece as lentes de contato onde não deveria, voltou a desligar a TV antes de dormir. Semana passada, um respeitável e despeitado amigos seu, veio dizer que se namorar uma garota de 17 anos pareceu uma merda, separar-se dela foi merda maior ainda.
Não mais nos encontramos ao acaso. Pra ser mais exata nunca mais desde o último dia.
Hoje chegou de Porto Alegre (viajou com o pai) e ligou-me dizendo:
- Olá. O Orly me pediu pra avisar da festa na casa dele hoje às 21:00. Ele não sabe que não estamos mais juntas, mas não custaria fazer esse favor. É isso.
Repetir o recado da secretária eletrônica várias vezes parece coisa de moçinha apaixonada de filme, mas eu fiz. Lembrei de quando nos conhecemos e reparei como esses momentos estão sendo parecidos, começo e fim de namoro. Não de amor, de namoro.
Ela tinha certa aversão a nos imaginar como um casal lésbico de simpáticas velhinhas e eu consolava-a dizendo que iríamos morrer antes disso. Mas não morreremos hoje, porque nos apaixonaremos pela milésima vez e dessa não teremos medo."

Thursday, March 01, 2007

Lee?

Heinrich caminhava nervoso pelo apartamento. Revirava a mesa, os armários, por entre os livros, buscava as chaves. Reluzentes, preciosas. E Lee sabia onde estavam? Não, e nem queria. Limitava-se a serrar as unhas, sentada numa das cadeiras frágeis que ele comprara no mês passado. Fingia não ver, não ouvir as reclamações desesperadas, não sentir o cheiro de suor e perfume masculino dos mais caros que ele começava a exalar. Este cheiro que lhe trazia protetor solar e correria à mente. O som dos passos, da borracha do tênis em atrito com o azulejo branco e não varrido, é que a traziam de volta para a sala calorenta.
Heinrich sempre detestara aquele descaso constante de Lee. Ela parecia nunca estar aqui, nunca se importar com nada, nunca ouvir ninguém. Onde diabos ele deixara as chaves?! Podiam estar em qualquer lugar, que nem a consciência da garota sentada em uma de suas cadeiras novas, a qual sujava o chão com o pó que fazia de suas próprias unhas. Ele tinha tanto nojo daquilo; lembrava-lhe a imundície de Gorki nos quartos dos hotéis que dividiram durante a viagem pela parte feia do país. A saída de ventilação! Será que caíram lá?
Depois de debruçar-se na janela da cozinha, o rapaz foi atender a porta mais suado ainda. Lee queria um ar-condicionado. Heinrich não imaginava que era o zelador trazendo suas chaves. Lee lembrou-se que ter um caso com o zelador não era tão vantagem assim; ele também vivia em um forno mal-arrumado. O jovem zelador explicara a Heinrich que as chaves estavam caídas no terraço, mas ele, Heinrich, nunca foi ao terraço.

Thursday, February 15, 2007

Farias

A sua tolice é falha
Minha falha é triste
Nossa tristeza é um brinquedo de enganar
Equívocos são convenientes
O que convém é tendencioso
Sua tendência é mentir
A mentira pode servir à plena lealdade
Ser leal quando alguém precisar
Aquela necessidade é tua
E tu és minha.

Saturday, December 16, 2006

Se você quiser pode bater a porta. Não se importe com minha presença aqui do outro lado. Bata a porta com a força de todos os seus medos, suas angústias, seus crimes. Seja mais covarde que eu, seja mais senil que esta que lhe escreve. Obedeça suas vontades inconstantes, aproveite o que elas não têm de bom. Jamais tente compreender o que eu tinha para dizer-lhe, jamais venha dizer-me que se arrependeu. Eu arrependi-me primeiro que você. Não tente agir naturalmente; não está isenta de culpa esta tua índole confusa. Vá dormir antes que lhe mate...antes.

Friday, November 17, 2006

How I love you

O primeiro:
- Não volto mais, é perda de tempo.
O segundo:
- O caso não é voltar. É preparar-se desde já.
O terceiro:
- Pode ser, mas de mim ninguém escapa.

O primeiro:
- De mim é que fogem.
O segundo:
- Se não parecesses tanto com um fantasma, não precisariam tanto de mim.
O terceiro:
- Besteira! Deixem de 'mim', o fato será sempre eu.

O primeiro:
- Tu? Ah, às vezes lamento por ti, objeto de obsessão.
O segundo:
- Isso é. Até me esquecem!
O terceiro:
- Não te deprimas, tu sabes que sem um o outro não existe.

O primeiro:
- Compraste tabaco?
O segundo:
- Não, não quero. E tu?
O terceiro:
- Não me perguntes nada. Sou o inefável momento da surpresa.