Friday, June 23, 2006

Hic At Nunc

- What, honey?
- An angel, mom...an angel.
Então assim se foi. Cortando o ar delicadamente, com asas invisíveis, negros cabelos esvoaçados, até diminuir a intensidade, fazendo os pés pousarem maçantes no asfalto morno das 8h da manhã. O sol projetava sombras desproporcionais, os transeuntes pareciam se multiplicar a cada passo; quanto mais se aproximava da avenida, mais barulhos desconhecidos ele podia ouvir. Sabia que depois daquela esquina encontraria o velho mundo viciante de sempre e tudo que pôde dizer foi:
- An angel, mom...an angel.

Monday, May 22, 2006

Seqüestre o coelho.

Às vezes parece que um universo paralelo, caótico (não faltei nessa aula de História da Filosofia não), ridiculamente simplório, conspira por algo incompreensível. Assemelha-se a um andarilho de mente sórdida, que dá rasteiras nas crianças hiperativas e assalta os pomares alheios. Duvida? Pois bem, você vai sair e a porta não quer fechar, precisa insistir até que ela pare de teimar, causando um estrondo daqueles. E a modernidade que trouxe as maçanetas seguras, enrigecidas por fora e de leveza sã por dentro, não lhe dá o direito de voltar. Suas chaves ficaram lá dentro e agora um andarilho come pêras, sentado no chão, recostado na sua porta.

Duvida? Pois não, eu...até lhe mostraria a silhueta dele, mas você já pediu a ajuda da vizinha e neste momento alguém se esbalda em gargalhadas não pausadas, cuspindo minúcias de pêra para todos os lados. Não há escada que alcançe os azulejos altos do seu andar. Os vizinhos já se aglomeram querendo saber o que você faz parado com cara de infeliz quase no meio da rua.

Eis que surge, não mais que de repente, Jarrão. O andarilho até arrisca olhar para fora, controlando o riso, ensaiando um arremesso de meia fruta na cabeça deste, porém hesita; tamanha é a massa de Jarrão, que a pobre pêra talvez voltasse para onde veio...e doeria. O gigante que sobe a rua caminhando consegue uma escada, pula a janela (tem alguém escondido no seu armário) e abre a porta. Pronto, pode subir, armar a rede e ajeitar a antena. Ahhh, mas a vizinha lhe chama! Cozinharam peru, jogaram no tucupí, com arranjos de jambú. Vá comer, que o andarilho sabe voltar sozinho. Aliás, dizem que o nome dele é Destino e no tal universo paralelo tudo acontece em nome dele. Duvida? Pois continue.

Sunday, May 07, 2006

Ah, mas é assim mesmo!

- Não quero sanduíche, quero comida.
- Sobe que eu te encontro assim que achar uma vaga.

Arroz branco. Ele comprou o jornal e quase esqueceu o óculos. Frango à milanesa. Ainda que tenha pena do dinheiro, manda pagar com a nota gorda. Filé com quatro queijos. Não há nada que compre a mais ínfima amizade por mim. Nem minha presença. Picadinho à jardineira. Parece amnésia de 17 anos, mas nem isso conseguiu apagar os traços da natureza. Seriedade dispersa, controle disfarçado, responsabilidade trivial. $10,08.

- Uma Coca-cola, por favor.

Alumínio gelado, plástico escorregadio, porcelana pesada. Ele brinca com os cadernos esportivos, policiais, mundiais. Jogo o troco como se não quisesse nada. Aquela mulher teima em comer um pão mais largo que a boca; eu só acho salgado. A fila para a pizza cresce; famílias acham-se confortavelmente acolhidas sob um teto burguês; eu só sinto-me imune. Todos tão feios, desformes. Hoje todos estão terrivelmente deselegantes, sem compostura que lhes caiba. É interessante dividir a mesa com ele, porque assim não transformo minha face em uma grande interrogação procurando a resposta certa para "É seu pai?".
A vida não é mais a mesma e isso basta para compreender o aconchego oculto de sua presença.

- Opa! Tem uma chave de carro caída no chão, senhor.
- É minha, obrigado.

Ele é impassível de movimentos, sabe fazer pose de pai importante e eu sei comer como filha legítima.
É sábado à noite, jornal do domingo seguinte, alimentos de buffet, gente demais.

- Pai, terminei.

Tuesday, April 25, 2006

Liza,

Vê se dessa vez presta atenção! Embarcarei no trem das 19h, que me levará até Jundiaí. De lá pego um carro e vou até Santos, onde um navio com destino à Europa está me esperando. Partimos na sexta, sem data para a volta. Se você estiver se perguntando por que não fui direto de trem até o porto, é sinal de que ainda não encontrou seu espírito aventureiro.
Avise mamãe que não fui eu quem comeu a última porção de broa (e que trago, se ela quiser, mil vezes mais das melhores broas italianas); diga ao Pelé que quando voltar jogo aquela pelada que fiquei devendo e guarde o baralho francês do papai na caixa amarela de papelão (embaixo da cama, no lado esquerdo e , de preferência, antes que ele sinta falta). Aquela calça pendurada no varal é do bilac. B-I-LA-C! Não do Rangel!
Enfim, cuide de todos, lembre de mim sempre com carinho, sempre como o irmão amoroso e atencioso de todos os momentos.

Galhardo
PS – Ah! Se sentirem minha ausência, diga que fui dar uma volta.

Friday, April 14, 2006

Ame-me, bastardo.

As vagabundas levantaram com vontade de dar as bundas. Gratuitas, a quem quiser, com rum e licor. Os malandros viram a mesa da jogatina com fúria, desprezo, raça. Os homens dementes de decência apenas tomam um cappuccino, observando os traseiros graciosos dos garçons. A criança teima com um sorvete de mabé, embora a avó diga que não pode.
Hoje todos têm direito de dizer e levar um foda-se para casa. Um foda-se vale mais que mil palavras.
Lambuzaram-se com o rum das vagabundas os malandros, porque elas lhes pertenciam.
Acabaram com a tinta da caneta de $40 dólares os senhores da decência ao quererem deixar um guardanapo com 8 dígitos escritos no bolso do garçom.
Chorou até doerem os pulmões a criança, sem perceber que os olhos da avó também se derramavam em doídas lágrimas por não entender como mabé só pioraria o câncer daquele anjo insano de cisma.
Corra e não se deixe para trás.

Monday, April 03, 2006

Alipístico

Cresci ouvindo que minha avó paterna era uma víbora, que meu pai era um canalha, que meu tio era o mais simpático, que minha tia já falecida era boa pessoa, no entanto jamais ouvi algo sobre o patriarca. Corcunda, ranzinza, banguela, cabelos brancos, chapéu, alpercatas, camisas de linho; se era assim ou não jamais soube por outras pessoas. Descobria ao chegar em sua casa, mas nas férias seguintes lembrava-me que já havia esquecido tudo e precisava observar de novo. Seu Alípio, tio Alípio, vô Alípio, sempre assim.
Alípio de olhos azuis, ralos cabelos brancos, bengala, forte, sorriso constante, do boné de modelo antigo. Gracioso, piadista, voz grave enrouquecida pelo tempo, chinelo e sono, muito sono. Do andar de baixo pra rede, da rede pro almoço, do almoço pra se perder nos braços de Morpheu. Não lhe ouvi roncar, nem reclamar de nada. Aprecia bacaba, a casa da Tatá, os sobrinhos que velhos já vão ficando, os poucos netos e viajar.
Abraçava-me chamando-me de Thayse. Eu explicava, sempre, sem exaustão, que era filha do Amaury e não do Aurimar. Ele entendia, mas nas férias seguintes confundia-se novamente. Sempre soube minha idade melhor que meu pai, único que faz-me rir no casarão velho do Jurunas.
Quando morrer, provavelmente saberei só um tempo depois. Talvez não chore, apenas sinta sua ausência sutil e peculiar.
Parece que descobri um pouco tarde que sou neta de Alípio.

Friday, March 31, 2006

Prada

Arrumei tudo, combinando suas tangerinas com limões frescos, a prataria da bisa com a porcelana da vó francesa, estendendo a toalha vermelho-xadrez, assando o peixe no horário em que o sol namora com as marés. Vesti o linho estampado, calçei as sandálias rasteiras, fechei os livros de Álvares.
Is it love or is it hate?
Embalei os lírios na brisa, cerrei os olhos e cresci na vontade de ser para sempre. Corri até a margem, sentei no fim e quis saber. Esperando você chegar.
Toquei nas lembranças com mãos de mãe, assoprei o que estava em desalinho, silenciei.
Limpei as cadeiras, escolhi o melhor dos planaltos. Recortei suas palavras e colei lá.
Para lhe esperar.
Mas você me fez cansar, deixou meu querer empoeirado numa caixa de marfim, alimentou meus sonhos irrealizáveis, trapaceou na ciranda menor. Então, acabou-se. Esclerosou-se o tempo, atrofiou-se o espaço. Dormis vós que já é tarde.

Friday, March 24, 2006

C'Mere


Apagando as luzes, acendendo uma brasa longínqua de qualquer Lucky Strike achado no caos do seu mundo, sentando como um fracasso personificado, encostando a têmpora em tão dolorosos joelhos, observando o breu. É assim que você me seduz. Suspirando pesarosamente, com ar de quem desta vida nada mais teme nem espera. Batendo metodicamente os pés no chão de ardósia, este quase congelado pelo inverno da madrugada, apoiando-se no móvel que ainda cheira ao depósito de onde saiu. Então, você me fascina.
Ouvindo o silêncio terno do quarto vazio, você não ousa falar, pois não quer despertar suas ilusões. Mexendo os dedos intimamente sufocados pela presença do mesmo par de tênis nos últimos três anos. O que é muito tempo, o que pode ser cedo ou tarde demais, o que é porque tem de ser. Fechando os olhos ingênuos e vacilantes por dois segundos, fazendo percorrer um calor tênue desde quando resolveu nascer até a última ponta dupla do cabelo deste exato momento. Você me orgulha.
Contemplando o céu, apenas encaixando o queixo no dorso da mão, não ligando para a fumaça inebriante da brasa que você esqueceu, rebuscando uma imagem das pessoas que mais amou, deixando um leve sorriso e uma lágrima escaparem dos seus desejos. Conquista-me. Pesando prós e contras, batalhas e calmarias, vontades e sonhos, conquistas e hesitações, eu me calo.
Lembrando que o tempo não pára, que até as brasas se apagam – e por quê não as estrelas? –, que a escuridão é uma questão de escolha, pois foi você quem apagou as luzes, levanta-se furtivamente, sentindo os pés e os poros mais que nunca, caminhando levianamente para um lugar que você não quer imaginar. Só chegar.
Que insólito! Apaixonei-me por mim.

Thursday, March 23, 2006

Que é que tu quer, maracajá cara de gato??

Blog pra escrever.
Blog pra ler.
Blog pra dizer "hello" e esperar o eco.